03/08/2006

a serpente cega

Não resisto à tentação de vos dar em leitura as primeiras frases do excelente romance de VITORINO NEMESIO cujo tituloé "Mau tempo no canal". Escutem esta maravilha :

 

...

Entravam em pormenores. Margarida ouvia-o agora vagamente distraida, de cabeça voltada às nuvens, como quem tem uma coisa que incomoda no pescoço, um mau jeito. O cabelo, um pouco solto, ficava com toda a luz da lampâda defronte, de maneira que a testa reflectia o vaivém da sombra ao vento.

Estavam quase ao alcance da respiração um do outro: ela debruçada num muro de pedra de lava; ele na rampa de terra que bordava a estrada ali larga, acabando com a fita de quintarolas que vinha das Angustias até quase ao fim do Pasteleiro e dava ao trote dos cavalos das vitorias da Horta um bater surdo, encaixado.

 

Depois de linhas e linhas assim, como é ainda possivel "escrever" qualquer coisa? A lingua na Arte Inteira, despidas de artefactos (tão utilizados por certos litereiros das praças nacionais e internacionais). Pureza de estilo, sobriedade das imagens e tanta certeza de olhar, retratando como se là estivessemos, o ambiente màgico e opaco das ilhas (neste caso Faial). Vêr as ilhas e morrer... no ventre das baleias mamiferas, pranheiras e prenhas. Parindo golfinhos ao mar, cansadas dos esgotos humanos que poluem o azul das praias. Limpar a Terra... voilà ce que l'on doit faire!

a serpente cega

Não resisto à tentação de vos dar em leitura as primeiras frases do excelente romance de VITORINO NEMESIO cujo tituloé "Mau tempo no canal". Escutem esta maravilha :

 

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Entravam em pormenores. Margarida ouvia-o agora vagamente distraida, de cabeça voltada às nuvens, como quem tem uma coisa que incomoda no pescoço, um mau jeito. O cabelo, um pouco solto, ficava com toda a luz da lampâda defronte, de maneira que a testa reflectia o vaivém da sombra ao vento.

Estavam quase ao alcance da respiração um do outro: ela debruçada num muro de pedra de lava; ele na rampa de terra que bordava a estrada ali larga, acabando com a fita de quintarolas que vinha das Angustias até quase ao fim do Pasteleiro e dava ao trote dos cavalos das vitorias da Horta um bater surdo, encaixado.

 

Depois de linhas e linhas assim, como é ainda possivel "escrever" qualquer coisa? A lingua na Arte Inteira, despidas de artefactos (tão utilizados por certos litereiros das praças nacionais e internacionais). Pureza de estilo, sobriedade das imagens e tanta certeza de olhar, retratando como se là estivessemos, o ambiente màgico e opaco das ilhas (neste caso Faial). Vêr as ilhas e morrer... no ventre das baleias mamiferas, pranheiras e prenhas. Parindo golfinhos ao mar, cansadas dos esgotos humanos que poluem o azul das praias. Limpar a Terra... voilà ce que l'on doit faire!