21/06/2006

no cais, uma garrafa vazia...

Quinta feira

 

 

Quinta feira cinzenta e aguaceira. Un três de Junho clandestino e sem maneiras.

 

O teu apelo é como o eco ténuo que o naufragado escuta ao longe, vindo nao se  sabe de onde.  De novo essa vontade de respirar o ar puro que nos traz à vida ! De novo a falsa esperança de acreditar que é possivel vencer o oceano das mentiras reais.

      

Quem és tu, sereia de sonhos passados ? O teu canto vem perturbar a ternura dos meus afastamentos, o abandono de tantos esquecimentos. Como um bandido apanhado em flagrante delito, estou aqui sem voz nem saber.

 

O meu universo é feito de auto-estradas do real, da certeza e da logica e hà muito me afastei das travessas de po e de luz. O ruido das mecanicas cartesianas impede-me de distinguir o canto das musa            s antigas. Que musica é esta pois, que me vem de longe e de dentro ? Abandona-me a força de acreditar o possivel mas ainda guardo intacto, nos olhos, o poema estilhaçado.

 

Como podes vêr respondo-te confuso e inquieto. Que força me habitava entao para suscitar vinte anos depois esta vontade de retomar caminhos incertos ? Queria compreender e nao consigo, embora me invadam duvidas e tentaçoes.  A minha amargura é o fruto da minha sêde de saber, mas confesso que nada aprendi senao que é no silêncio do olhar que o canto da vida se entoa.

 

Resta-me a secreta satisfaçao de reler uma frase, de redescobrir a importância do gesto e a força da palavra. Mas corroi-me a expectativa de conhecer os teus caminhos : quero acreditar que sete mil dias volvidos é possivel retomar vicios antigos.

 

Perdoa-me se desta forma nao « te evito emoçoes » mas as circunstancias deste acontecimento perturbaram profundamente a quietude das minhas rotinas.

 

(carta a Fàtima Neves, autora de « luz E pó », Bruxelas  1993)

12:40 Écrit par Joz | Lien permanent | Commentaires (0) |  Facebook |

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