28/04/2006

... le joli moi de mué

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27/04/2006

 ... ir e vir

Patética IV

 

Vieram caminhantes

e passaram

vieram pàtrias e morreram

mulheres, prostituiram-se

Vieram poetas, calaram-se

vieram depois os outros

e protestaram

 

Aqui na fronteira do mêdo

ao norte da vida

entre um cântico romântico

e um despertar héroico

invento meus braços meus sonhos

em patético silêncio

do norte que vive em mim

 

Despontava jà o Sol

sorriam jà as crianças

rezavam os padres e as madres

as terras se iluminavam

aproximava-se a festa

da circuncisão

E não havia pão.

Mas em compensaçao

haveria discursos e palmas

e a inauguração

da estupidez alheia

 

nos caminhos despidos cansados

morreram os passos protestos

nos campos abertos olhares

choraram os trigos agrestes

e na cidade deserta

pastavam carneiros vadios

 

O tràgico vazio cercava a hora 

num silêncio aborrecido

cansado de fazer poarmas

cansado cantava contente

e vivendo cantando chorava

 

De pulsos abertos ao vento

nascia um poente de sangue

adição tédia da vida

 

Roçadas, (Angola) 11/1969

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26/04/2006

... passos

Teus passos

 

Quero fazer de teus olhos

como quem faz um poema

uma canção feita de armas

duas làgrimas, duas balas

 

quero cantar em verso

como quem veste de rua

uma seara queimada

uma rosa desfolhada

uma rua ensanguentada

em cada rosto um desjo

em cada esquina uma espada

 

Quero fazer dos teus braços

duas armas, dois poemas

em cada mão cinco balas

escritas com passos de lua

para matar cada homem

que encontrar pela rua

 

Não bastam vozes cansadas

Não chegam rostos molhados

Não restam braços cruzados

nem passos enferrujados

 

e muito menos entao

ouvir falar de prudência

calma, fé e paciência

porque quero vestir de futuro

os teus passos, meus poemas

 

                Luanda, 8/1968

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25/04/2006

... agonias miudas...

« Gritarei ; mas é débil e pequena

a voz para poder desabafar-me,

porque nem com gritar a dôr se abrande »

Luis de Camões, Canto X

Vida possivel

  

Vem desfazer-te em poemas

nos meus braços maduros de seiva

e vem cantar-me no peito

as prais distantes da vida

 

Vem bordar-me nos olhos

com teus cabelos de seda

e rebentar-me nas mãos

poentes de poesia-mulher

 

vem desenhar-me no corpo

desejos de ventre mulher

e escorrer-me nos dedos

cantigas de mêdo vencido

 

vem plamilhar-me a alma

chorar-me de màguas ausênsias

presente nada do zero

virtudes, vicios, caricias

 

Vem assentar no meu leito

as dores de teu olhar infante

perdido de norte matizes

 

vencer-me na bôca

a resistência da palavra

o gesto pintado de branco

 

Vem carregar-me de amanhãs

a esperança derrubada

caminhar incerto preferido

à doce calma bastarda

 

 Vem despojar-me da noite

da tentação desnudada

teus seios redondos de afagos

no respigar da madrugada

 

vem vencer-te mulher e ficar

na resistência branda da luta

razão outra da vida

 

Roçadas, (Angola) 6/1969

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24/04/2006

.. mariana

Os condenados de D.Sebastião

 

Mariana coisa minha

flôr de vidro pensada

Mariana, Mariana

 

teus pés de enchadas plantados

em meus pensamentos outros

teus olhos de vidro rendados

coraçao que o mundo espanta

 

Mariana

flôr de vidro quebrada

Mariana, Mariana

 

que tempos passados sem alma

que historias outras contadas

teus sonhos por mim roubados

esquecidos, cantiga rouca

 

Mariana na escada

acorrentada ao regresso

nós, de exilios condenados

a teus pés nos libertamos...

 

Bruxelles, /1983

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21/04/2006

agonias antigas

Dois quintos

 

Resvalo do sonho prà cova

num descuido de linguagem

nem mesmo a gramàtica nova

me safa desta engrenagem

 

cansado de tanto inventar

a curto duma ideai bela

é-me fàciul a morte cantar

mas toma cuidado co’ela

 

porque nisto de gramàticas

pode o senhor imaginar

as mortes são todas fantàsticas

mas não fàceis de rimar...

 

Bruxelles, 4/1984

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13/04/2006

a decencia dos dias

Dois décimos

 

Poema que me cresce nos olhos

das raizes da Historia

percorrendo veias de sangue

a latejar-me no pensamento ôco

 

da bôca saiem-me cabelos de raiva

jà antiga de séculos escarlates

acumuladas no oceano do pranto

e da esperança moldada

 

agora aqui semeado no cimento progressivo

duma civilizaçao em ferro e lata forjada

gerei-me num deslizo de punho fechado

de fruta madura

de gemido embaciado

 

um grito mudo a estilhaçar-me o espanto

dos braços

cresceram-me silêncios

e a solidao roi-me o ventre

de promessas

 

a loucura vestida de domingo

ganhou direito à decência dos dias

 

mas ontem, ontem amigo

vestia-me de amanhãs e de segredos.

 

Bruxelles, 1/1973

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